"Acho que em qualquer época eu teria amado a liberdade; mas na época em que vivemos, sinto-me propenso a idolatrá-la"
(Tocqueville)

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Para que serve (se é que serve) a cultura literária?

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É verdade que os escritores em geral resistem em atribuir alguma utilidade à literatura. Para eles, a literatura não deve ter nenhuma serventia. E nisso estaria precisamente um de seus mais relevantes objetivos: a literatura existe para indicar que nem tudo na vida está aí para preencher determinada função na engrenagem social. Numa época tão excessivamente funcionalista como é a nossa, a literatura seria, então, o espaço livre fora da fábrica, em que os operários podem respirar ar puro — esquecidos de sua condição de mera peça de uma indústria de pregos e parafusos.

Porém, se bem que muitos tratem a literatura de ficção como passatempo ou diversão (ainda que uma diversão necessária), é evidente que ela responde a inquietações humanas muito sérias e profundas. E isso é assim porque a literatura de ficção é parte da cultura; é parte da herança que recebemos como participantes de uma determinada civilização. Quem quer que pretenda ser mais que um “átomo solto no ar” (vivendo de lá para cá em meio a tantos outros fragmentos de pessoas que sobrevivem nas ruas e nos programas de televisão) deve necessariamente conhecer a herança cultural e espiritual de sua civilização e buscar integrá-la em sua própria vida.

Porém, reconheçamos: em uma época que proporciona evidentes facilidades até mesmo ao mais miserável dos moradores das grandes cidades, toda essa estória de assimilação da cultura pode nos parecer anacrônica e desnecessária. Porque, ora, não nos parece evidente que as facilidades que nossa civilização proporciona nos vêm independentemente de termos consciência de suas origens ou de integrarmos em nós essas mesmas formas culturais?

A resposta é: sim e não.

Por um lado, a resposta é “sim“: você é um herdeiro natural da Civilização Ocidental desde que nasceu (provavelmente você veio à luz em um hospital e segundo as técnicas obstetrícias transmitidas de geração em geração); e não necessitou ter consciência disso para começar a ser beneficiário passivo de suas estruturas. Você já nasceu chorando e exigindo abrigo e alimento. E, em alguma medida, conseguiu tudo isso de graça.

Porém, a resposta é também “não” — porque se você é um usufrutuário desses benefícios mas não possui em si as formas da cultura — o que significa, em última instância, possuir a virtude de presentificá-la — você vive na superfície da civilização; e é, portanto, indigno de receber essa herança. Em razão das características mesmas daquilo a que chamamos cultura, você irá recebê-la de qualquer maneira (como os cachorrinhos recebem as migalhas que caem da mesa de seu senhor), mas será, essencialmente, como um comensal que não ajudou em nada a melhorar o ambiente em que fez gratuitamente sua refeição.

Convenhamos, então, que a cultura deve ser assimilada pelos indivíduos que pretendem colocar em atuação seu potencial muito humano de tomar parte da civilização.

Se bem que seja fácil classificar a literatura de ficção como parte da cultura de um povo, o mesmo já não acontece quando se trata de compreender por quê ela, a literatura de ficção — tantas vezes vista como depositária de narrativas inventadas por imaginações excessivamente férteis e insuficientemente ocupadas com a vida real — deve ser assimilada pelas pessoas em ordem a qualificá-las a viver como gente.

As perguntas a que buscaremos responder nesta série de posts são as seguintes: a literatura de ficção é essencial para a formação do ser humano? Se não é, por que tantas pessoas boas (e aparentemente bem-intencionadas) “perdem seu tempo” nessa atividade? E, se é essencial, por quê e como utilizá-la nesse contexto?

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