"Acho que em qualquer época eu teria amado a liberdade; mas na época em que vivemos, sinto-me propenso a idolatrá-la"
(Tocqueville)

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Médicos e deputados: como os escolhemos?

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A experiência nos diz que uma mesma pessoa não pode ser excelente em tudo o que faz. Nem mesmo os melhores são assim (até por isso eles costumam ser humildes, porque a humildade é reconhecer o próprio tamanho). Sabendo disso, quando estamos doentes vamos ao médico, e quando queremos consertar um sapato vamos ao sapateiro. Não costumamos pedir ao nosso dentista uma opinião jurídica, nem que o motorista de ônibus nos ensine a prosperar no mercado financeiro. Em todas as nossas necessidades, procuramos os melhores profissionais que nosso orçamento pode suportar.

Por circunstâncias bem conhecidas, não é exatamente isso o que acontece com a escolha de nossos governantes e legisladores, que em decorrência do princípio democrático (princípio fundamental de nossa República Federativa, cf. art. 1º da Constituição da República), são eleitos pela vontade da maioria. Isso, por si só, não é um mal: um povo educado e bem informado é capaz de eleger os melhores representantes para ocupar os cargos mais importantes. É por isso que a democracia pressupõe que cada cidadão se preocupe com a própria educação. Porém, não é isso o que acontece hoje no Brasil. Muita gente ficou negativamente surpresa no dia 17 de abril passado ao ouvir a “motivação” dos votos dos deputados para a continuidade do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Ora, perguntem aos eleitores brasileiros, no dia das eleições, a motivação de seus votos, e o susto será ainda maior. Portanto, como esperar que nossos deputados sejam muito melhores que nós mesmos somos? Jamais me esquecerei de um candidato a vereador de Águas Formosas, que me procurou na condição de promotor de justiça para se queixar dos resultados de sua frustrada campanha:

– Doutor Bruno, eu nunca mais vou me candidatar a coisa nenhuma! Como está difícil fazer campanha! A gente faz reunião nos bairros, propõe nossas ideias, mas o que mais vê é eleitor querendo que você pague a conta de luz, que conserte a bicicleta, que consiga uns tijolos e uns sacos de cimento. Eu desisto!

Pois é. Ainda que a maioria dos eleitores não esteja preocupada com contas de luz e com sacos de cimento, a verdade é que os candidatos eleitos não são propriamente os mais preparados para governar, para fiscalizar o Executivo e para fazer as leis. Os candidatos eleitos são muito bons em uma coisa: em fazer campanha política, atividade que, sob o atual sistema eleitoral, é uma arte que poucos dominam. Leiam o livro O Nobre Deputado, do juiz de direito Márlon Reis, e saberão do que estou falando. Uma campanha política hoje exige tanta habilidade, tanta consultoria de imagem, tanta retórica e tanto dinheiro para pagar propaganda e cabos eleitorais que a questão essencial da eleição (que é saber quem é o candidato mais preparado) jamais é levantada seriamente. Elegemos, assim, pessoas especializadas em parecer honestas, em parecer competentes na mesma medida em que “fazem o diabo” (a expressão é da chefe maior da nação) para se elegerem. Uma vez eleitos, nossos representantes precisam “prestar contas” da campanha eleitoral a seus doadores e – não menos importante – criar condições favoráveis para a próxima eleição. Por isso, passam boa parte do tempo útil de seu mandato em negociatas para acertar os ponteiros com o passado e para construir uma boa perspectiva para o seu futuro. Não é preciso ser muito esperto para entender por que, em nosso país, nas iniciativas em que o poder público tem grande parcela de responsabilidade, as coisas só dão certo por puro acaso.

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