"Acho que em qualquer época eu teria amado a liberdade; mas na época em que vivemos, sinto-me propenso a idolatrá-la"
(Tocqueville)

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Em busca da intolerância religiosa

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A repetição de uma ideia mentirosa não a transforma em verdade, claro; mas pode dar a impressão de que em torno dela se fez consenso. É por isso que a exaustiva repetição da teoria da intolerância religiosa no Brasil a acabou levando, com ares de supina justiça, ao posto glorioso de tema de redação do Exame Nacional do Ensino Médio — Enem.

Os examinadores deste ano pretenderam ouvir, dos jovens, sugestões de “Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil”. Com mais pé-no-chão, o tema poderia ter sido, claro, “Caminhos para combater o massivo assassinato de cristãos no século XXI” ou “Caminhos para combater a intolerância contra cristãos nas universidades”. Mas, não. A escolha foi justamente pela intolerância religiosa no Brasil, pressupondo, sem discussão, sua existência clara como a luz do Sol.

A intolerância religiosa no Brasil é da mesma natureza que os gnomos de São Tomé das Letras, MG, cidade em que passei alguns bons pedaços de minha juventude. A única substância entorpecente de que lá fazia uso era um vinho tinto de mesa chamado Marcón, servido em copos de plástico num bar zenouvindo música brasileira numa roda de violão no Morro do Cruzeiro. Foi lá que ouvi pela primeira vez A Massa, de Raimundo Sodré (“a dor da gente é dor de menino acanhado, menino-bezerro pisado, no curral do mundo a penar“). Ali próximo, um grupo de malucos (que não chegaram até ali para tomar vinho tinto em copo de plástico) comentava o aspecto, o ânimo e o misterioso destino de três gnomos que – juravam por tudo o que de mais proibido traziam nos bolsos – os abordaram atrás de uma construção abandonada no alto daquele morro encantado. Nossas fantasias inofensivas costumam ser engraçadas: com pleno direito e leves pelo vinho, nós ríamos daqueles jovens visionários.

Quando imagino o que os examinadores do Enem chamam de intolerância religiosa no Brasil de hoje penso naqueles gnomos de São Tomé; e me lembro das pregações (chatas, sejamos sinceros) que alguns pastores protestantes fazem, aqui e ali, orientando seus fiéis a respeito das religiões de matriz africana; e também de pregações que os cristãos em geral fizeram há pouco tempo sobre a nova pretensão, titularizada por pessoas do mesmo sexo, de constituírem famílias inspiradas no modelo conservador-reacionário de origem judaico-cristã (pretensão que não tem mais de uma década de existência, mas que é tratada como um direito humano fundamental que por cinco mil anos teria sido cruelmente negado a todos os interessados).

Reconheço que, em casos isolados, alguns pastores protestantes possam ter cruzado a linha do bom senso a ponto de incentivar uma má-vontade contra os adeptos da Umbanda e do Candomblé. Ora, mas ninguém nunca viu professores leigos das Pontifícias Universidades Católicas pregando contra o Cristianismo? Eu já me cansei de ver.

Além disso, a enfadonha questão do reconhecimento de relações homossexuais como entidade familiar não seria um problema digno de justa atenção se militantes da causa não houvessem conseguido avançar, no Congresso Nacional, com um projeto de lei federal (o famoso PLC 122/06) que queria mandar para a cadeia qualquer pessoa que ousasse criticar filosoficamente suas condutas. Então, seria assim: poderíamos falar mal do presidente da República, falar mal de deputados, criticar o Papa Bento XVI, xingar advogados, deplorar adúlteros e prostitutas, falar mal de empresários, maldizer pai e mãe, falar mal dos irmãos e dos primos: os únicos que teriam a proteção, da lei penal, contra críticas seriam os homossexuais. Sob ameaça de serem presos por afirmarem a doutrina do Catecismo, lideranças cristãs se mobilizaram para rejeitar essa aberração jurídica que violava, a um só tempo, a liberdade de expressão e o bom senso. Essa é parte da nossa suposta intolerância religiosa: uma manifestação, no Congresso Nacional, contrária a um projeto que ameaçava colocar todos os cristãos na cadeia. Vejam que contrassenso: intolerantes não são os que querem colocar todo mundo na cadeia; intolerantes são os que tentam usar argumentos racionais para não ser presos. Não há educação possível num ambiente intelectualmente insalubre como esse.

Morrem assassinados no Brasil cerca de sessenta mil pessoas por ano. Sou capaz de apostar que nenhum desses crimes foi motivado pelo ódio de origem religiosa. Não há intolerância religiosa no Brasil. Há, sim, ofensas recíprocas entre uns e outros; e há, por assim dizer, uma pujante indústria cultural treinada e bem-paga para bater nos cristãos e torná-los motivo de riso.

A intolerância religiosa no Brasil é como os gnomos de São Tomé das Letras: há uma vasta literatura fantástica e pseudo-científica a respeito. Eu nunca vi, mas alguns juram que eles existem.

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